a noite me acorda
e discorda
os meus pensamentos
dos sonhos em horda
a melancolia
que resta do dia
é felicidade
na noite vazia
a noite, inquieta,
comporta ignorância
e sabedoria
mas mostra aquilo
que eu não queria:
só a saudade
é de verdade
a noite me esgota
tomo nota
das ideias que, pródigo,
derramo no escuro
mas nunca as vejo
como são:
tornam-se idéias
em vão
toda alma
vira lama
toda calma
vira coma
toda chaga
vira página
toda mágoa
vira água
entre o cinza das nuvens que tocam
o alto dos prédios mais altos
e a ponta dos prédios mais baixos
há essa imensidão branca,
a espera dos desesperados
a esperança dos suicidas
o medo dos seguros
a nuvem cinza vai-se dissipar
e aí, o céu todo branco
aí o mundo, todo pranto
a lua seduz
à noite, brilha
e apaga a luz
o fim de tudo é a morte
mas vive-se tão incerto
que até para morrer
é preciso ter sorte
prateleira:
parte prate,
parte leira.
o quarto anda meio sem vida
o violão já não soa,
a janela não ringe,
o pensamento ecoa
oco,
o pulmão suspira
pouco,
e a gente finge.
vão-se
os carrinhos
de brinquedo,
os bonecos
(e os medos?)
que se vão!
cabe mais
no vão que deixam
que na lacuna
que preenchem
a espera cultiva
ervas daninhas no sonho
a espera inunda
e me afoga no sono
a espera,
mesmo que breve,
corrói a corda do tempo
que ironia:
a espera
enobrece
a angústia
domingo
fantasmas em visitas
margaridas florescem
velhos amores eternizam-se
num domingo sem fim
O velhinho não tem pressa. A batida do relógio é sempre a mesma, e assim ele espera que se mantenha a do próprio coração por mais alguns anos. Por isso o carro dele desliza enquanto os outros “avalancham” pela Terceira Perimetral. O velinho sabe de toda a conspiração que fez que o mundo conspirasse para o ponto em que se encontra. Mas não mais se desespera, pois conhece o início e o fim de todo escândalo e sabe que, assim como seu próprio conformismo, a vida se acomoda e amarra a corda num moeirão de cerca – o velhinho sabe que chegarão em enchentes as lágrimas que hão de lavar a terra.
Mas tudo isso passa pela minha cabeça, não pela do velhinho. A dele deve estar mais preocupada com as coisas que a enchente não leva. Como em distingüir – e isto parece coisa rara entre os que passam por ele feito flechas que mal riscam a paisagem – as três cores que se acendem alternadamente no objeto gerivá que o homem inventou para orientar os motoristas, e em que, inevitavelmente, o calmo e sábio pagé voltará a encontrar as impacientes flechas que são capazes de matar homens, mas incapazes de furar a barreira constante e inabalável dos computadores dos semáforos de trânsito.


