Dividindo espaço com as consagradas telenovelas tupiniquins, os já tradicionais programas de auditório e os pós-modernos programas de variedades - que muitas vezes mais parecem saladas misturando formatos informativos com formatos do entretenimento-, não se pode dizer que o telejornalismo seja preferência nacional. Nas palavras de Bordieu (1997),

levadas pela concorrência por fatias de mercado, as televisões recorrem cada vez mais aos velhos truques dos jornais sensacionalistas, dando o primeiro lugar(…)às variedades e às notícias esportiva.

A proposta deste texto é refletir, sem objetivar um posicionamento absoluto e teimoso, a respeito do risco apresentado à informação, por essa televisão que sobrevive da publicidade e coloca o lúdico e o entretenimento acima do jornalismo. Por fim, ele se revelará mais uma introdução para questionamentos do que um desenvolvimento aprofundado dos assuntos nele tratados.

 

Quem tem medo de digitalização?

 

A eminente chegada da TV Digital está longe de ser a prenuncia de algo totalmente novo. Há anos vivemos numa era digital e tiramos proveito de muitos dos recursos que agora, depois de serem vastamente testados e disponibilizados como serviços individuais, passarão a estar reunidos num só media: a televisão. Assim, a percentagem que constitui os digitalmente inclusos não verão mais nessa nova “tela eletrônica” do que uma extensão do computador pessoa. Porém, se não representa uma surpresa para quem a consome, a digitalização cria uma nova modalidade de assistir TV: a programação à-la-carte. Saímos de uma programação horizontal, que

 

significa, em resumo, a estratégia utilizada pelas emissoras para estipular um horário fixo para determinado gênero (…) para criar no telespectador o hábito de assistir ao mesmo programa nesse horário. (Souza, 2004)

Com a possibilidade de se ver o que se quer, a máxima da comunicação que diz que “os meios transmitem o que o receptor espera” assume o ápice de sua concretude, e cria um clima de suspense e desconfiança – o que será que o receptor irá escolher assistir?

A Rede Globo, que foi quem mais fez escola em termos de telejornalismo no país, nos serve de exemplo para pensar nos riscos do “menu de programas”. Foi ela quem trouxe o conceito de casal apresentando o telejornal, e ela também que, posicionando o Jornal Nacional estrategicamente entre duas telenovelas, conseguiu garantir altos níveis de audiência para o programa, em um país onde até poucas décadas atrás, grande parte das pessoas não tinha sequer educação, mas assistia televisão, e assistia a programação da Globo.

Tomando, então, a programação Global como base para nosso raciocínio, quantas das pessoas que assistem ao Jornal Nacional entre as novelas das 7 e das 9 irão manter o hábito caso sejam elas habilitadas a montar sua própria grade de programação? Não há como saber, porém, certamente serão tomadas medidas para que se mantenham os níveis de audiência do gênero jornalístico. Entretanto, ainda não estão totalmente claras as funcionalidades que serão efetivamente disponibilizadas a um clique do controle remoto.

 

 


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