Archive for the 'poetria' Category
incomunicável
minha mente ainda te toca
meu peito ainda te afaga
minha mente ainda me mata
meu peito ainda me esmaga
incomunicável
pensamento te persegue
que lugar agora habitas?
por que rua agora escapas,
a buscar quem te carregue?
incomunicável
a fugir sem ser achada
inalcansável
que me chama e te afastas
imperdoável
consciência que se arrasta
onde estará a poesia?
deixas o legado
e levas todo o leve
eu vivo mais pesado
que meu existir te deve
se tu existisses breve
quem me dera, quem me dera
que ainda existisses linda
quase um sonho um tu-ainda
mas se só existes sonho
já não durmo, já não duro
que alguém também me leve
assim coberto de furos
cada um é falta tua
em que minha alma escorre nua
eu repleto [...]
é só escrevendo
que busco a palavra
e só com a palavra
que lavro o momento
é só num momento
o aprisionamento
de todo o espaço
se espalhar no tempo
e é cada palavra
estilhaçamento
do tempo engessado
com amarras de vento
a exatidão
tem uma chance parca
e exata
de estar certa
quase nada
é mais exato
que uma bala perdida
e há os que lhe fujam
inexatos
por toda uma vida !
neste sentido, a exatidão
é – qual o escuro -
inexata
no outro,
a inexatidão
é que nos mata
na esquina, o mendigo faz falta
na memória a lembrança transborda
oh, quanto tempo de sobra
ah, pouco tempo que falta
velhos tempos de medos etéreos
tempos de sonhos rijos
será o hoje sempre genocídio?
é dela que falavam
ao conversar sozinhos
os mendigos:
da nostalgia de tempos idos
onde repousa
o não-vivido
o peso do talento
é um peso lento
e de todo acalento
surte pouco alento
posto que o talento
é um esmagamento
o talento é um peso que persiste
sobre a cabeça daquele que resiste
o talento não salva o bastante
para salvar-nos dele próprio
que dádiva mais sem simetria
e cheia de reticências
se esgota na agonia
declarada de sua existência
(e se meu dúbio talento deságua
em tão [...]
a noite me acorda
e discorda
os meus pensamentos
dos sonhos em horda
a melancolia
que resta do dia
é felicidade
na noite vazia
a noite, inquieta,
comporta ignorância
e sabedoria
mas mostra aquilo
que eu não queria:
só a saudade
é de verdade
a noite me esgota
tomo nota
das ideias que, pródigo,
derramo no escuro
mas nunca as vejo
como são:
tornam-se idéias
em vão
toda alma
vira lama
toda calma
vira coma
toda chaga
vira página
toda mágoa
vira água
entre o cinza das nuvens que tocam
o alto dos prédios mais altos
e a ponta dos prédios mais baixos
há essa imensidão branca,
a espera dos desesperados
a esperança dos suicidas
o medo dos seguros
a nuvem cinza vai-se dissipar
e aí, o céu todo branco
aí o mundo, todo pranto
a lua seduz
à noite, brilha
e apaga a luz


