Archive for the 'é crônico' Category

poesia?

incomunicável
minha mente ainda te toca
meu peito ainda te afaga
minha mente ainda me mata
meu peito ainda me esmaga
incomunicável
pensamento te persegue
que lugar agora habitas?
por que rua agora escapas,
a buscar quem te carregue?
incomunicável
a fugir sem ser achada
inalcansável
que me chama e te afastas
imperdoável
consciência que se arrasta
onde estará a poesia?

Passei os últimos meses remoendo a morte da Dina. Nenhum dia chegou ao fim sem que eu pensasse nela pelo menos uma vez. E nenhum dia entrou para o passado sem que eu lembrasse do passado de que eu mais tenho sentido falta, que foi aquele em que ela estava perto de mim. Não, eu [...]

O velhinho não tem pressa. A batida do relógio é sempre a mesma, e assim ele espera que se mantenha a do próprio coração por mais alguns anos. Por isso o carro dele desliza enquanto os outros “avalancham” pela Terceira Perimetral. O velinho sabe de toda a conspiração que fez que o mundo conspirasse para [...]

raduan nassar me sugou as palavras.
minha alva rosa do desespero é uma folha de papel igualmente branca, em que as ganas são de não saber como preenchê-la.
e as instituições da família e do tempo, sólidas do peso do chumbo e frágeis como as próprias pétalas esvaídas, são o que menos me atormenta neste momento em [...]

mulheres conversadeiras
homens conservadores
eles disconversam
elas conversam, dizem
que conservam a harmonia
eles ironizam, tentam
passar a conversa
versas uns versos sem nexo
ver se dos versos sai sexo
homens conversadores
mulheres conservadoras

O povo na Argentina ainda se indigna
com a falta do olhar pelos homens do campo
de pijama rosa, com o pai, duas meninas
batem panela juntos com a multidão
que tomou a esquina callao y santa fé
duas horas de caçarolaço intenso
o sr., assobiando, também bate
“Buenos Aires Apoya al Campo”
Mas o homem do táxi discorda
acha que é coisa de [...]

A aeromoça que checa se os passageiros estão de cinto, olhando para suas regiões pélvicas como quem queima na xeca. O táxi que corre no Brasil corre muito mais risco do que o que corre muito mais em Buenos Aires.
Buenos Aires das meninas que nem são tão belas como se pensa. Das livrarias mil e [...]

Um estalo repentino chama a atenção para a garrafa de plástico. Não que ele não viesse olhando pra ela desde que teve seu momento de silêncio no carro. Tudo que sobrou pra ele depois da segunda tentativa errante foi uma garrafa de água. Vazia. A última ligação dele com o passado que não quis que [...]

Eu caminhava contra o vento pela Fernandes Vieira, entre a Independência e a Oswaldo, presente e passado da boemia provinciana. E escutava no meu iPobre e cantava alto uma música do Caetano de 1971 – Maria Bethânia – gravada nos tempos de exílio. Uou, eu me senti um cara legal, ouvindo um Caetano bem mais [...]

Maus ventos sopram na rua dos cataventos. Aliás, Rua dos Cataventos é um título com um quê de infantilidade, de fantasia, de brincadeira. Cataventos, quando penso neles, me lembram duas coisas: minha infância, avivada por imagens do Brique da Redenção, e o parque eólico de Osório, com seus cataventos gigantes, gerando energia enquanto o vendaval [...]




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