O velhinho não tem pressa. A batida do relógio é sempre a mesma, e assim ele espera que se mantenha a do próprio coração por mais alguns anos. Por isso o carro dele desliza enquanto os outros “avalancham” pela Terceira Perimetral. O velinho sabe de toda a conspiração que fez que o mundo conspirasse para o ponto em que se encontra. Mas não mais se desespera, pois conhece o início e o fim de todo escândalo e sabe que, assim como seu próprio conformismo, a vida se acomoda e amarra a corda num moeirão de cerca – o velhinho sabe que chegarão em enchentes as lágrimas que hão de lavar a terra.
Mas tudo isso passa pela minha cabeça, não pela do velhinho. A dele deve estar mais preocupada com as coisas que a enchente não leva. Como em distingüir – e isto parece coisa rara entre os que passam por ele feito flechas que mal riscam a paisagem – as três cores que se acendem alternadamente no objeto gerivá que o homem inventou para orientar os motoristas, e em que, inevitavelmente, o calmo e sábio pagé voltará a encontrar as impacientes flechas que são capazes de matar homens, mas incapazes de furar a barreira constante e inabalável dos computadores dos semáforos de trânsito.



28, August, 2008 at 2:51 pm
que massa. me lembrou os poemas de um escritor português, o Gonçalo Tavares. comprei um livro ótimo dele na Saraiva, se chama “1″. estava a bom preço, dá uma olhada lá uma hora.
abreiz