A aeromoça que checa se os passageiros estão de cinto, olhando para suas regiões pélvicas como quem queima na xeca. O táxi que corre no Brasil corre muito mais risco do que o que corre muito mais em Buenos Aires.

Buenos Aires das meninas que nem são tão belas como se pensa. Das livrarias mil e dos cafés de esquina. Da Santa Fé, da Corrientes e da 9 de julio. Buenos Aires das ruas iguais que contam histórias incontáveis. Dos pedintes que entram nos restaurantes e são tratados como quase-gente.

Vir à capital argentina com os pais é uma experiência bem diferente da que se tem ao fazê-lo com os amigos. Andar te taxi faz a gente olhar mais pras lojas do que pras construções bonitas que se estendem acima da linha das vitrines. E andar a pé pode fazer com que se olhe tanto pras folhagens nas sacadas mil, que um eventual buraco na calçada – e eles não são tão eventuais assim – torna-se uma armadilha em potencial.

As crianças já posam de roqueiras – franja caída e roupas transadas, o máximo de transa que elas obtêm nessa idade. Não por falta de estímulo: na Calle Florida, a Rua dos Andradas de jaquetinha adidas e cabelo estiloso, as bancas de jornal estão mais para bancas de anal e oral. “Surubas de Travestis”, exibe a capa de um DVD numa dessas bibocas paralelepípidicas, armazéns dos salames e dos humores humanos.

Buenos Aires não é uma cidade sensível – é uma cidade sentada sobre as cabeças dos que trafegam por suas ruas, praças e galerias. Todo o peso multifacetado da cidade mais européia da américa latina repousa sobre cada unidade vivente, gerada ou não no ventre dela, a cidade menos européia das que podem ser chamadas assim.

Eu, por outro lado, sinto muito tudo isto. Essas pessoas que passam e não te olham. Que te vêem e sentem como se fosse a primeira vez (guardar uma dezena de milhões de rostos não é tão fácil quanto um mísero milhão e meio). E, ao mesmo tempo, esta beleza em tudo. Até nas mulheres, que são qualquer coisa, menos lindas, há uma beleza áustera, confiante.

Buenos Aires vive em mim quando eu vivo em Buenos Aires. E vive mais ainda quando eu vou embora. Buenos Aires me enamora. E me apavora.





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