Famílias terrivelmente felizes [...] Marçal Aquino
Marçal Aquino é para alguns o grande escritor brasileiro da última geração. Para mim, apresentou um dos melhores títulos que um livro já recebeu: “Eu ouviria as piores notícias de seus lindos lábios”, um romance curtinho e incendiário, um Rubem Fonseca relaxado por um cigarro de maconha, um corte na carne do cotidiano prosaico, revelando o que nele há de mais carnal (duh).
Acabei um livro dele e engatei em outro – graças à biblioteca particular generosa do amigo Ricardo. “Famílias terrivelmente felizes” fica um pouco atrás no quesito título, além de se tratar de um livro de contos, estilo que gosto um pouco menos que o romance meio pulp de “Eu ouviria…”. O legal aqui é ser uma daquelas coleções-antologia, traçando a evolução e amadurecimento do autor. E é interessante que, quanto mais “imaturo” o autor, mais eu gosto do conto. Aquino em 1981 tinha a escrita anárquica e utópica do garoto que pretende explodir o mundo com seu texto. Não tinha idéias geniais, mas aquela ingenuidade artística de quebrar a linearidade do texto de um jeito só seu, de ler apenas os escritores mais subversivos e de tentar subverter também. O texto de Aquino jovem passa longe do “corte na carne do cotidiano prosaico”. É como se o próprio cotidiano sangrasse, jorrasse e, por isso dificultasse o contato olho-no-olho com o autor. O Aquino jovem não se expõe – você procura o traço autobiográfico no texto, mas quando somos jovens, somos no texto aquilo que não somos na vida. Assim, cicatrizamos tanto de nos cortarmos na carne que quando amadurecemos ficamos como o Aquino pós-2000: recortando a carne pra sangrar novamente, se expondo, sendo quem somos tentando travestir-nos de personagens que criamos.
Por estes dois Aquinos, “Famílias terrivelmente felizes” é intrigante e saboroso de se ler do início ao fim.
Até o dia em que o cão morreu [...] Daniel Galera
Nenhum livrinho qualquer há de ousar me tocar mais que me tocou o “Mãos de Cavalo”, do Galera. Se há dois “lugares do sonho” na minha vida, um deles é a fazenda pra onde vou desde que nasci e foi palco de fantasias quase-espirituais desde que a infância ficou no passado. O outro é Porto Alegre e tudo que poderia ter acontecido em minha juventude aqui – e não necessariamente aconteceu. A Porto Alegre vivida pelo protagonista de “Mãos de Cavalo” é a que eu vi dissolver-se em meio à era digital que avançava junto com a minha infância e os anos 90. Por isso a narrativa de Galera me toca: porque atravessa exatamente a mudança que eu atravessei.
Eis que, depois de acabar o livro de Aquino, comecei a ler “Até o dia em que o cão morreu”, livro que inspirou o filme “Cão sem Dono”, que eu não vi. Fiquei tão preso na narrativa fluida e curta – como o cotidiano do protagonista – que li as 90 páginas em uma deitada na cama, antes de dormir e, o mais incrível, sem pegar no sono. Talvez pela tremenda identificação com o livro. A essa altura me pergunto: porra, esse cara conhece a minha vida? Ou será que eu me torno ele quando vou dormir e não sei? Formado em Letras (que eu gosto muito), morando sozinho em um apê no alto de um prédio no alto da Duque (que eu gosto mais ainda) e tendo como companhia apenas um cão vira-lata que encontra na rua e uma guria que só aparece pra dar uma trepada, o protagonista vive de introspecção e espera, não se sabe pelo quê. O desenrolar da história, que é muito rápido e bastante realista, parece mostrar um pouco do que seria um Galera igual à penca de “adolescentes tardios” que, como foi muito bem dito na resenha de Fernando Mafra, “se acha capaz de fazer tudo mas não acha nada digno de ser feito”. Que bom que Galera amadureceu a tempo de tornar-se a revelação que é, e deixar a relapsidão para seus protagonistas.



30, November, 2007 at 10:53 pm
‘quase-artigos’ é uma etiqueta muito boa.
O Marçal, esse, não foi o cara que vocês entrevistaram?
Me empresta o livro do Galera depois. Eu, ao contrário de ti, vi o filme, mas não li o livro.
abraço
5, December, 2007 at 11:14 am
Curioso isso… eu talvez tenha dois “lugares do sonho” iguais ao teu, a diferença é que eu não dispunha de uma fazenda para ir. Na verdade, fazenda talvez seja uma palavra que soe empolada demais. O que eu queria era campo, interior, uma linha do horizonte tão distante que a impossibilidade de tocá-la seria um regalo. Já Porto Alegre… aqui nasci, aqui me fiz – e faço -, aqui me perco e me encontro, aqui sigo. Mais do que sina, esta cidade é ímã. O Alto da Bronze e a região da Duque também me tocam. Assim como uma metrópole provinciana que não tinha shopping, as livrarias da rua da Praia, os sebos mais lá pra cima, as esquinas do Bom Fim, as conversas noite a dentro com meus colegas de colégio sentado nas arquibancadas do carnaval montadas em plena Perimetral, do tempo que perimetral era apenas uma. Mas isso hoje é memória. E no final das contas, o que somos além de memória?
5, December, 2007 at 12:43 pm
opa! não passava aqui faz um tempinho. ótimas observações. muito do mãos de cavalo se passa na zona sul de poa, acho que a identificação geográfica é um dos aspectos dessa cidade imaginária que tu chama de ‘lugar do sonho’. eu gostei da adaptação para o cinema, embora uma e outra cena tenham me incomodado. até as próximas trocas de bibliotecas generosas.
6, December, 2007 at 11:13 am
pois o alto da bronze é um nome que carrega muita nostalgia…”alto da bronze”. combina bem com barbearias antigas, lojas que vendem badulaques e brinquedos ancestrais e tal.
e eu quero ver essa adaptação para o cinema, mas ainda não tem em dvd. ahhh, ta passando na casa de cultura, lembrei disso. mas acho que não rola pq é só à tarde.
gracias por su tiempo.