deixas o legado
e levas todo o leve
eu vivo mais pesado
que meu existir te deve
se tu existisses breve
quem me dera, quem me dera
que ainda existisses linda
quase um sonho um tu-ainda
mas se só existes sonho
já não durmo, já não duro
que alguém também me leve
estou coberto de furos
cada um é falta tua
em que minha alma escorre nua
eu repleto de vazio
me completo com tristeza
e se tu voltasses riso
sorrisses servindo a mesa
aí eu crescia o ciso
e jamais seria frio
vivia sem mais represa
das lágrimas de que preciso
pra aguar meu peito seco
- só a saudade é de verdade
se tu existisses livre
aí eu também me livro
e cada furo meu fosse asa
que nos voasse pra casa
queria sentir criança
queria roubar-te o sono
pudesse invadir-me o sonho
a verdade da tua lembrança
é só escrevendo
que busco a palavra
e só com a palavra
que lavro o momento
é só num momento
o aprisionamento
de todo o espaço
se espalhar no tempo
e é cada palavra
estilhaçamento
do tempo engessado
com amarras de vento
a exatidão
tem uma chance parca
e exata
de estar certa
quase nada
é mais exato
que uma bala perdida
e há os que lhe fujam
inexatos
por toda uma vida !
neste sentido, a exatidão
é – qual o escuro -
inexata
no outro,
a inexatidão
é que nos mata
na esquina, o mendigo faz falta
na memória a lembrança transborda
oh, quanto tempo de sobra
ah, pouco tempo que falta
velhos tempos de medos etéreos
tempos de sonhos rijos
será o hoje sempre genocídio?
é dela que falavam
ao conversar sozinhos
os mendigos:
da nostalgia de tempos idos
onde repousa
o não-vivido
o peso do talento
é um peso lento
e de todo acalento
surte pouco alento
posto que o talento
é um esmagamento
o talento é um peso que persiste
sobre a cabeça daquele que resiste
o talento não salva o bastante
para salvar-nos dele próprio
que dádiva mais sem simetria
e cheia de reticências
se esgota na agonia
declarada de sua existência
(e se meu dúbio talento deságua
em tão medíocre poema
prova-se que vale nada
repousa na crista baixa
das minhas penas)
a noite me acorda
e discorda
os meus pensamentos
dos sonhos em horda
a melancolia
que resta do dia
é felicidade
na noite vazia
a noite, inquieta,
comporta ignorância
e sabedoria
mas mostra aquilo
que eu não queria:
só a saudade
é de verdade
a noite me esgota
tomo nota
das ideias que, pródigo,
derramo no escuro
mas nunca as vejo
como são:
tornam-se idéias
em vão
toda alma
vira lama
toda calma
vira coma
toda chaga
vira página
toda mágoa
vira água
entre o cinza das nuvens que tocam
o alto dos prédios mais altos
e a ponta dos prédios mais baixos
há essa imensidão branca,
a espera dos desesperados
a esperança dos suicidas
o medo dos seguros
a nuvem cinza vai-se dissipar
e aí, o céu todo branco
aí o mundo, todo pranto
a lua seduz
à noite, brilha
e apaga a luz
o fim de tudo é a morte
mas vive-se tão incerto
que até para morrer
é preciso ter sorte


