de costas

oceano
espelho d’água
da terra, um terço te enterra
o outro tanto tu lavas

nada é o que seria
fosse tudo noutro dia

paradoxo.

os laços do tempo
são os únicos que resistem
ao peso esmagador da rotina
porque é de algodão
o barbante das horas
e, ainda que não volte
quando desenrola,
o futuro guarda um fio
tênue e resistente
de ligação com outrora:

há um resto de escuridão
em toda aurora
há um pouco do riso
que chora.

poetria.

a partir de agora, este blog tenta renascer das sílabas acompanhadas de imagem.

[aqui deveria ter um início rebelde]

às vezes queria
o conformismo rebelde
dos bois

pastar, pastar, pastar
e invejar os touros
dando uma bela cagada na grama

fui fugir de mim, te encontrei
foi eu te encontrar que me achei
foi eu me achar, percebi
que valeu a pena fugir
e depois

fui te encontrar e fugir
pra qualquer lugar, mesmo aqui
só fugir pra dentro de nós
e a sós atar bem cegos nós
pra fugirmos pela janela
pro mundo que ela revela

ou será um espelho, a janela,
a te refletir, vista bela?

poesia?

incomunicável
minha mente ainda te toca
meu peito ainda te afaga
minha mente ainda me mata
meu peito ainda me esmaga

incomunicável
pensamento te persegue
que lugar agora habitas?
por que rua agora escapas,
a buscar quem te carregue?

incomunicável
a fugir sem ser achada
inalcansável
que me chama e te afastas
imperdoável
consciência que se arrasta

onde estará a poesia?

Um poeta pós-adolescente
É melhor que um adulto descrente
Um olha pra trás
O outro, pra frente

Passei os últimos meses remoendo a morte da Dina. Nenhum dia chegou ao fim sem que eu pensasse nela pelo menos uma vez. E nenhum dia entrou para o passado sem que eu lembrasse do passado de que eu mais tenho sentido falta, que foi aquele em que ela estava perto de mim. Não, eu não tenho o consolo dos religiosos, mesmo que eu emule um nos momentos de desespero. Por isso, o luto pela morte da Dina tem sido vagaroso e aparentemente infinito, ainda que seja também sutil, quase imperceptível, raramente liquefeito.

Talvez me falte, sobretudo, a capacidade de enfrentar a realidade sempre que o presente e o futuro se tornam passado e não-passado. Talvez pela memória um tanto errática, eu primeiro sinta falta apenas do que não mais acontecerá, ou seja, em vez da tristeza, é a chateação, a prostração o sentimento dominante. Me senti anestesiado nos últimos meses, até que semana passada, de uma hora para a outra, o ato diário de lembrar e pensar na Dina passou a me encher os olhos de lágrimas. Antes, eu dificilmente chorava ao lembrar dela, porque me reprimia por não lembrar de situações específicas, diálogos pontuais entre eu e ela, até por serem tão comuns no tempo que ficou para trás – eram o próprio cotidiano. Não espero muito que eu lembre dessas situações, pois tenho poucos desses filmes de roteiro bem definido guardados em minha desorganizada memória. Mas me sinto curado desse mal e finalmente consigo chorar.

Hoje, são exatamente as generalidades sobre Dina – que são também suas características mais marcantes e inigualáveis, as idiossincrasias que sintetizam seu infinito particular -, enfim, são os clichês daquela personalidade tão singular o que me faz chorar. Ela falando que alguma coisa era jóia ou tri, ou dizendo “picsa”, “niuguets” e “partilera”, ou insistindo em me chamar de Seu Nanando, Meu Véio e Sapeca mesmo quando meu próprio vocabulário era dominado por palavras chulas. Eu brigando com ela e eu chorando sempre que pensava no dia em que ela não estaria mais aqui. A Dina era a própria felicidade. A minha felicidade.

Lembro da Dina uma vez por dia, mas sinto que penso nela o tempo todo. E penso que sentirei ela para sempre.

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