deixas o legado
e levas todo o leve
eu vivo mais pesado
que meu existir te deve
se tu existisses breve 
quem me dera, quem me dera
que ainda existisses linda
quase um sonho um tu-ainda
mas se só existes sonho
já não durmo, já não duro
que alguém também me leve
assim coberto de furos
cada um é falta tua
em que minha alma escorre nua
eu repleto de vazio
me completo com tristeza
e se tu voltasses riso
e risses servindo a mesa
aí eu crescia o ciso
e jamais seria frio
vivia sem mais represa
das lágrimas de que preciso
pra aguar o meu peito seco
só a saudade é de verdade
se tu existisses livre
aí eu também me livro
e cada furo meu fosse asa
que nos voasse pra casa
queria sentir criança
queria roubar-te o sono
queria invadir-me o sonho
a verdade da tua lembrança

deixas o legado
e levas todo o leve
eu vivo mais pesado
que meu existir te deve

se tu existisses breve 
quem me dera, quem me dera
que ainda existisses linda
quase um sonho um tu-ainda

mas se só existes sonho
já não durmo, já não duro
que alguém também me leve
estou coberto de furos

cada um é falta tua
em que minha alma escorre nua
eu repleto de vazio
me completo com tristeza

e se tu voltasses riso
sorrisses servindo a mesa
aí eu crescia o ciso
e jamais seria frio

vivia sem mais represa
das lágrimas de que preciso
pra aguar meu peito seco
- só a saudade é de verdade

se tu existisses livre
aí eu também me livro
e cada furo meu fosse asa
que nos voasse pra casa

queria sentir criança
queria roubar-te o sono
pudesse invadir-me o sonho
a verdade da tua lembrança

lavoura.

é só escrevendo
que busco a palavra 
e só com a palavra
que lavro o momento

é só num momento 
o aprisionamento
de todo o espaço
se espalhar no tempo

e é cada palavra
estilhaçamento
do tempo engessado
com amarras de vento

pont.o

a exatidão
tem uma chance parca
e exata
de estar certa

quase nada
é mais exato
que uma bala perdida

e há os que lhe fujam
inexatos
por toda uma vida !

neste sentido, a exatidão
é – qual o escuro -
inexata

no outro,
a inexatidão
é que nos mata

extermínios.

na esquina, o mendigo faz falta
na memória a lembrança transborda
oh, quanto tempo de sobra
ah, pouco tempo que falta

velhos tempos de medos etéreos
tempos de sonhos rijos
será o hoje sempre genocídio?

é dela que falavam
ao conversar sozinhos
os mendigos:
da nostalgia de tempos idos
onde repousa
o não-vivido

 

o peso do talento
é um peso lento
e de todo acalento 

surte pouco alento
posto que o talento
é um esmagamento

o talento é um peso que persiste
sobre a cabeça daquele que resiste
o talento não salva o bastante
para salvar-nos dele próprio

que dádiva mais sem simetria
e cheia de reticências
se esgota na agonia
declarada de sua existência

(e se meu dúbio talento deságua
em tão medíocre poema
prova-se que vale nada
repousa na crista baixa
das minhas penas) 


antes do sonho.

a noite me acorda
e discorda
os meus pensamentos
dos sonhos em horda
a melancolia
que resta do dia
é felicidade
na noite vazia

a noite, inquieta,
comporta ignorância
e sabedoria
mas mostra aquilo
que eu não queria:
só a saudade
é de verdade

a noite me esgota
tomo nota
das ideias que, pródigo,
derramo no escuro
mas nunca as vejo
como são:
tornam-se idéias
em vão

destino da poesia.

toda alma
vira lama
toda calma
vira coma
toda chaga
vira página
toda mágoa
vira água

página. (incompleta)

entre o cinza das nuvens que tocam
o alto dos prédios mais altos
e a ponta dos prédios mais baixos
há essa imensidão branca,
a espera dos desesperados
a esperança dos suicidas
o medo dos seguros

a nuvem cinza vai-se dissipar
e aí, o céu todo branco
aí o mundo, todo pranto

haikaído

a lua seduz

à noite, brilha

e apaga a luz

certezas.

o fim de tudo é a morte
mas vive-se tão incerto
que até para morrer
é preciso ter sorte

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