fui fugir de mim, te encontrei
foi eu te encontrar que me achei
foi eu me achar, percebi
que valeu a pena fugir
e depois
fui te encontrar e fugir
pra qualquer lugar, mesmo aqui
só fugir pra dentro de nós
e a sós atar bem cegos nós
pra fugirmos pela janela
pro mundo que ela revela
ou será um espelho, a janela,
a te refletir, vista bela?
incomunicável
minha mente ainda te toca
meu peito ainda te afaga
minha mente ainda me mata
meu peito ainda me esmaga
incomunicável
pensamento te persegue
que lugar agora habitas?
por que rua agora escapas,
a buscar quem te carregue?
incomunicável
a fugir sem ser achada
inalcansável
que me chama e te afastas
imperdoável
consciência que se arrasta
onde estará a poesia?
Um poeta pós-adolescente
É melhor que um adulto descrente
Um olha pra trás
O outro, pra frente
Passei os últimos meses remoendo a morte da Dina. Nenhum dia chegou ao fim sem que eu pensasse nela pelo menos uma vez. E nenhum dia entrou para o passado sem que eu lembrasse do passado de que eu mais tenho sentido falta, que foi aquele em que ela estava perto de mim. Não, eu não tenho o consolo dos religiosos, mesmo que eu emule um nos momentos de desespero. Por isso, o luto pela morte da Dina tem sido vagaroso e aparentemente infinito, ainda que seja também sutil, quase imperceptível, raramente liquefeito.
Talvez me falte, sobretudo, a capacidade de enfrentar a realidade sempre que o presente e o futuro se tornam passado e não-passado. Talvez pela memória um tanto errática, eu primeiro sinta falta apenas do que não mais acontecerá, ou seja, em vez da tristeza, é a chateação, a prostração o sentimento dominante. Me senti anestesiado nos últimos meses, até que semana passada, de uma hora para a outra, o ato diário de lembrar e pensar na Dina passou a me encher os olhos de lágrimas. Antes, eu dificilmente chorava ao lembrar dela, porque me reprimia por não lembrar de situações específicas, diálogos pontuais entre eu e ela, até por serem tão comuns no tempo que ficou para trás – eram o próprio cotidiano. Não espero muito que eu lembre dessas situações, pois tenho poucos desses filmes de roteiro bem definido guardados em minha desorganizada memória. Mas me sinto curado desse mal e finalmente consigo chorar.
Hoje, são exatamente as generalidades sobre Dina – que são também suas características mais marcantes e inigualáveis, as idiossincrasias que sintetizam seu infinito particular -, enfim, são os clichês daquela personalidade tão singular o que me faz chorar. Ela falando que alguma coisa era jóia ou tri, ou dizendo “picsa”, “niuguets” e “partilera”, ou insistindo em me chamar de Seu Nanando, Meu Véio e Sapeca mesmo quando meu próprio vocabulário era dominado por palavras chulas. Eu brigando com ela e eu chorando sempre que pensava no dia em que ela não estaria mais aqui. A Dina era a própria felicidade. A minha felicidade.
Lembro da Dina uma vez por dia, mas sinto que penso nela o tempo todo. E penso que sentirei ela para sempre.
deixas o legado
e levas todo o leve
eu vivo mais pesado
que meu existir te deve
se tu existisses breve
quem me dera, quem me dera
que ainda existisses linda
quase um sonho um tu-ainda
mas se só existes sonho
já não durmo, já não duro
que alguém também me leve
estou coberto de furos
cada um é falta tua
em que minha alma escorre nua
eu repleto de vazio
me completo com tristeza
e se tu voltasses riso
sorrisses servindo a mesa
aí eu crescia o ciso
e jamais seria frio
vivia sem mais represa
das lágrimas de que preciso
pra aguar meu peito seco
- só a saudade é de verdade
se tu existisses livre
aí eu também me livro
e cada furo meu fosse asa
que nos voasse pra casa
queria sentir criança
queria roubar-te o sono
pudesse invadir-me o sonho
a verdade da tua lembrança
é só escrevendo
que busco a palavra
e só com a palavra
que lavro o momento
é só num momento
o aprisionamento
de todo o espaço
se espalhar no tempo
e é cada palavra
estilhaçamento
do tempo engessado
com amarras de vento
a exatidão
tem uma chance parca
e exata
de estar certa
quase nada
é mais exato
que uma bala perdida
e há os que lhe fujam
inexatos
por toda uma vida !
neste sentido, a exatidão
é – qual o escuro -
inexata
no outro,
a inexatidão
é que nos mata
na esquina, o mendigo faz falta
na memória a lembrança transborda
oh, quanto tempo de sobra
ah, pouco tempo que falta
velhos tempos de medos etéreos
tempos de sonhos rijos
será o hoje sempre genocídio?
é dela que falavam
ao conversar sozinhos
os mendigos:
da nostalgia de tempos idos
onde repousa
o não-vivido
o peso do talento
é um peso lento
e de todo acalento
surte pouco alento
posto que o talento
é um esmagamento
o talento é um peso que persiste
sobre a cabeça daquele que resiste
o talento não salva o bastante
para salvar-nos dele próprio
que dádiva mais sem simetria
e cheia de reticências
se esgota na agonia
declarada de sua existência
(e se meu dúbio talento deságua
em tão medíocre poema
prova-se que vale nada
repousa na crista baixa
das minhas penas)


